Futebol Americano no Brasil: crescimentos e dificuldades

No país do futebol, um outro tipo de esporte tem começado a ganhar espaço na audiência, nos campos e até nos estádios. Com a bola oval e jogado em sua maior parte do tempo com as mãos, o futebol americano virou febre no Brasil.
Se há alguns anos os times eram desconhecidos aqui, hoje estão presentes em camisas, bonés e as famosas Jerseys, com nomes dos grandes jogadores da atualidade, como Tom Brady, Aaron Rodgers e Russell Wilson, e também de jogadores lendários como Payton Manning, Joe Montana e Dan Marino, e atraem cada vez mais a atenção das pessoas. Mas como foi o surgimento do futebol americano e sua chegada no Brasil?
As raízes do esporte
De acordo com o site A história (https://ahistoria.info/historia-do-futebol-americano/), O futebol americano surgiu através de uma mistura do rugby com o soccer (futebol jogado com os pés), nos Estados Unidos, por volta de 1850. Americanos amantes de ambos os esportes, ao retornarem de excursões na Inglaterra, trouxeram seus fundamentos e os adaptaram para disputarem suas partidas.
Com isso, eles uniram algumas regras e criaram o tão famoso futebol americano. Aliando agilidade e força física, o esporte começou a crescer em popularidade, porém, os jogadores não usavam a devida proteção e isso acarretou em várias contusões e traumas, fazendo com que o governo americano intervisse e obrigasse o uso de equipamentos de segurança. A história do esporte começou a ganhar seu reconhecimento efetivo quando em 1919 ocorreu o primeiro jogo profissional de futebol americano, disputado entre a equipe do Buffalo Prospects contra os Canton Bulldogs. Os Bulldogs tinham em seu elenco Jim Thorpe, campeão olímpico de decatlo e pentatlo no ano de 1902, em Estocolmo.
Jim foi o principal nome envolvido no surgimento da NFL. A princípio foi criada a American Professional Football Association (Associação Americana de Futebol Profissional), que viria a se tornar a National Football League (Liga de Futebol Nacional) dois anos depois. O início, em contrapartida, não foi algo simples, dificuldades financeiras cercavam as primeiras equipes. Um regulamento confuso, além da falta de estrutura para a prática do esporte também foram um dos principais obstáculos para que a liga deslanchasse. E assim foram os primeiros anos, até que apenas em 1933 a liga conseguiu se estabilizar como uma competição organizada e com o mínimo de estrutura necessária para à pratica do futebol americano.
Os primeiros passos no Brasil
Por aqui, o futebol americano demorou a conquistar o seu espaço. Em um país que é reconhecido mundialmente pelo futebol, o esporte norte americano demorou para conquistar o território brasileiro. A sua história no Brasil teve início em 1986, com estudantes cariocas que começaram a praticar nas areias da praia o chamado Beach Football (Futebol de areia).
Cinco anos depois surgiu efetivamente a primeira equipe de futebol americano em solo brasileiro, o Joinville BlackHawks – SC, que hoje é conhecido como Joinville Panzers. No ano 2000, surgiu a primeira competição em solo nacional, o Carioca Bowl, que foi disputado na areia. No mesmo ano, ocorreu o primeiro campeonato disputado na grama, a Liga Catarinense.
Em 2009 tivemos a primeira competição devidamente equipada com capacetes e o tradicional shouder pads - equipamento de proteção do corpo dos atletas. Em 2009, também, tivemos o TouchDown, um campeonato nacional que reuniu 30 equipes de todo país. No site MRV no Esporte (https://mrvnoesporte.com.br/futebol-americano-no-brasil-conheca-a-historia-e-as-equipes-mais-marcantes/) você encontra mais detalhes sobre o futebol americano no Brasil.
O crescimento da audiência e o avanço do esporte em solo brasileiro
Ao longo dos anos, o crescimento do interesse do público brasileiro pelo futebol americano se tornou maior. Atualmente, o Brasil é o terceiro país que mais assiste a NFL (National Football League) no mundo, atrás apenas de México e Estados Unidos (https://telepadi.folha.uol.com.br/audiencia-futebol-amer- icano-da-nfl-na-espn-cresce-33-em-relação-ultima-temporada/). Esse interesse pelo esporte aumentou também a prática da modalidade no país, que conta com campeonatos estaduais e nacionais mais organizados.
Outro fator que evidencia o aumento do interesse pelo futebol americano é a adesão de grandes clubes de futebol ao esporte americano. Times como América/MG, Atlético/MG, Cruzeiro, Corinthians, Coritiba, Flamengo, Palmeiras e Vasco fizeram parcerias com times já existentes para estampar o nome da equipe e oferecer estrutura e patrocínio para o treinamento e disputa das grandes competições.
Apesar do crescimento, muitas equipes ainda enfrentam dificuldades, Thiago Simão, presidente do Contagem Inconfidentes time da região metropolitana de Belo Horizonte, falou um pouco sobre a história da equipe e os desafios que enfrenta diante do atual cenário do esporte no Brasil.
Comunica News: Como surgiu a equipe do Contagem Inconfidentes FA?
Thiago Simão: O Contagem Inconfidentes surgiu para ser uma vertente diferente no Futebol Americano, nosso projeto não se trata de um projeto para ser campeão, somos um projeto transformador de vidas, onde queremos trazer pessoas com quaisquer problemas e ajudá-los a serem cidadãos melhores. Com este intuito, vimos que precisávamos criar uma nova equipe, algo novo, e assim surgiu o Inconfidentes.
CN: Quais os principais desafios de coordenar uma equipe de futebol americano em um país no qual o esporte ainda tem pouca popularidade?
Thiago Simão: A popularidade não é pouca, ela é concentrada. Hoje temos mais de 20 milhões de pessoas consumindo a NFL e uma boa parcela dessas pessoas consomem o futebol americano brasileiro. Mas somos uma modalidade com pouca visibilidade, tanto na mídia, quanto nos estádios e temos dificuldades para trazer gente nova para o esporte. Dito isso, vejo hoje que o principal desafio é a falta de apoio, tanto de alguns órgãos públicos, quanto privados. Hoje, o esporte perde espaço para uma partida de futebol, por exemplo. Já tivemos um jogo oficial de campeonato desmarcado por causa de peladinha. A falta de verba é outro fato extremamente ponderante, pois trava vários bons projetos, como os projetos de base.
CN: O futebol americano vem crescendo e ganhando seu espaço no cenário esportivo nacional, com isso atrai mais patrocinadores e investidores para as equipes, atualmente qual é o cenário em relação a isso? Quais são as dificuldades financeiras?
Thiago Simão: O Futebol Americano vem crescendo muito, alguns patrocinadores vem chegando discre- tamente a ele e outros já apostam no esporte com mais ênfase, mas os investimentos ainda são pequenos, exceto quando se possui um time de futebol por trás, como o Galo FA, aí os valores são diferentes e mais elevados.
O caminho de quem escolhe ser atleta

Conversamos também com o jogador e presidente Betim Bulldogs Futebol Americano Julio Reis. Aqui, ele fala das dificuldades, do olhar que as pessoas têm para quem decide entrar no futebol americano e suas motivações.
Comunica News: No país considerado o país do futebol, como é ser um atleta de futebol americano?
Julio Reis: É algo diferente, as pessoas têm muitos questionamentos e curiosidades em geral. Por maior que esteja em crescimento ainda é algo novo. Mas sempre com muita aceitação e interesse de todos.
CN: O que motivou a escolha pelo esporte?
Julio Reis: Por amar o esporte e pelo desafio. Sempre gostei de desafios e com o Futebol Americano não foi diferente. Quando eu disse que iria começar a jogar e passar por uma seletiva, surgiram alguns olhares cruzados. Mas no final deu tudo certo e hoje estamos firmes. (risos)
CN: Quando e como começou a praticar?
Julio Reis: Surgiu uma seletiva para o Contagem Inconfidentes e nela constava a oportunidade para aqueles que nunca tinham jogado Futebol Americano antes. Daí resolvi participar, passei e comecei a treinar. Meu maior medo era ficar ali na teoria e nunca conseguir ir para a prática, mas não foi o que aconteceu. O Inconfidentes me ensinou a base, fui desenvolvendo e ano passado com menos de um ano no futebol americano fui para liga nacional (jogando).
CN: Hoje é possível ser um atleta de futebol americano em tempo integral ou tende a conciliar com outra profissão?
Julio Reis: Nós temos atletas que dedicam integralmente o seu dia ao Futebol Americano, mas ainda sim a grande maioria concilia trabalho ao FA. O que não é uma missão fácil, já que treinamos de 22hrs às 00hrs segunda, quarta e quinta.
(Imagens: Fabiano Guieiro/ Pierry Rodrigues - A equipe mineira se prepara para o próximo campeonato)
CN: Sabendo das dificuldades e falta de apoio no cenário nacional, qual a expectativa para um futuro dentro do esporte?
Julio Reis: De maior visibilidade e pessoas que não visam só o lucro, mas sim o repasse de conhecimento. Sabemos que falta muito para que isso ocorra, mas estamos caminhando bem. Precisamos de mais projetos que não visam somente campeonatos, times com estrelas, mas de times que estejam com disposição para ensinar e sem distinção de faixa etária. O Futebol Americano cabe todos, do grandão de 2m ao pequeno de 1,5m, do magrinho de 60kg ao mais pesado de 150kg.
Em nossos jogos é perceptível a aceitação do público e o interesse, muitos que estão ali ainda não conhecem nem as regras, porém já têm uma admiração pelo esporte, têm vontade e curiosidade de saber mais. Expectativa é que tenhamos escolinhas de FA espalhadas por todo canto. Que tenhamos participantes da modalidade de 7 a 10 anos até o coroa de 50 aos 60 anos. Que tenhamos times espalhados por Bairro e não por Estado.
CN: Qual a motivação gerada através da ascensão de jogadores brasileiros na liga americana, como exemplo Cairo Santos e Duzão?
Julio Reis: A ascensão, principalmente do Duzão foi algo muito gratificante para todos nós, alegria muito grande. Um cara que estava ali, jogando em um time ao nosso lado, no qual tivemos a oportunidade de acompanhar partidas de perto, isso é muito satisfatório para todos nós. E isso serviu de exemplo, com objetivo, dedicação e disciplina podemos chegar lá também.
CN: Você enxerga um futuro para os esportes americanos no cenário nacional? Qual a expectativa?
Julio Reis: Sim, com certeza. Na minha infância e adolescência eu via esses esportes americanos, mas como algo longe sabe?! Algo que não fazia parte da minha cultura, um entretenimento que eu iria consumir só ali pela TV, entretanto hoje em dia tudo mudou. Eles estão ganhando cada vez mais espaço no Brasil e ao invés de ver só da sua casa, você pode assistir no campo, ver de perto e ter a oportunidade de fazer seletivas e participar. Claro que ainda sim os esportes americanos, como o FA, não chegam para todos, porém acredito que com o tempo e com certo investimento eles vão se popularizar cada vez mais. E isso é incrível, quanto mais opções de esportes tivermos para praticar, mais terá a inclusão de diferentes pessoas. Afinal, não é todo mundo que gosta de futebol, né? (risos).


Para saber mais sobre as regras do Futebol americano, veja também:
https://www.youtube.com/watch?v=0Qh0TmJdMCI) saiba sobre as regras do futebol americano em menos de 2 minutos.



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